segunda-feira, 3 de julho de 2006

Este lago está cada vez mais pacifico

sábado, 13 de maio de 2006



Nasci em Maio, o mês das rosas, diz-se. Talvez por isso eu fiz da rosa a minha flor, um símbolo, uma espécie de bandeira para mim mesmo.
E todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, no dia 12 de Maio, às dez e um quarto da manhã (que foi a hora em que eu nasci), a minha mãe abria a porta do meu quarto, acordava-me com um beijo e colocava numa jarra um ramo de rosas vermelhas, sem palavras. Só as suas mãos, compondo as rosas, oficiavam nesse estranho silêncio cheio de ritos e ternura.
Nesse tempo o Sol nascia exactamente no meu quarto. Eu abria a janela. Em frente era o largo, a velha árvore do largo dos ciganos. Quando chegava o mês de Maio, eu abria a janela e ficava bêbado desse cheiro a fogueiras, carroças e ciganos. E respirava o ar de todas as viagens, da minha janela, capital do mundo, debruçado sobre o largo onde começavam todos os caminhos.
E tudo estava certo, nesse tempo, ou, pelo menos, nada tinha o sabor do irremediável. Nem mesmo a morte da minha tia. Por muito tempo ela ficou nos retratos e no jardim, bordando à sombra das magnólias, andando pela casa nos pequenos ruídos do dia-a-dia, até que, pouco a pouco, se foi confundindo com as muitas ausências que vinham sentar-se na cadeira, onde, dantes, minha tia se sentava.
E eu dormia poisado sobre a eternidade, como se tudo estivesse certo para sempre, eu dormia com muitos olhos, muitos gestos vigilantes sobre o meu sono. Por vezes tinha pesadelos, acordava, inquieto, a meio da noite, qualquer coisa parecia querer despedaçar-se e então exclamava:
- Mãe!
E logo essa voz, tão calma, entrava dentro de mim, mandava embora os fantasmas, e era de novo o meu quarto, a doce quentura da minha casa no cimo da ternura.
Não havia polícia nesse tempo. Ninguém roubaria a tranquilidade do meu sono, ninguém viria a meio da noite para me levar, porque bastava eu chamar:
- Mãe!
E logo uma voz, tão calma, mandava embora os fantasmas. E era a paz, nesse tempo, em que todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, o dia 12 de Maio, às dez e um quarto da manhã, a minha mãe abria a porta do meu quarto e colocava, religiosamente, um ramo de rosas vermelhas sobre a minha vida, nesse tempo, em que dormir, acordar, nascer, crescer, viver, morrer, eram um rito no rito das estações.
Em Maio de 1963 eu estava na cadeia. Por vezes, a meio da noite, um grito abalava as traves da minha cabeça, direi mesmo da minha vida, e eu acordava suado, dolorido, como se um rato (talvez o medo?) me roesse o estômago. E era inútil chamar. Onde ficara essa voz que dantes vinha repor o sono no seu lugar, repondo a paz dentro de mim? E as manhãs penduradas no mês de Maio, onde acordar era uma festa? Onde ficara a ternura? Onde ficara a minha vida?
Em Maio de 1963 eu estava na cadeia. Dormia – como direi? – acordado sobre cada minuto. Tinha aprendido o irremediável. Alguma coisa, dentro de mim, se despedaçara para sempre (para sempre? Que quer dizer para sempre?). Era inútil chamar. Tinha aprendido, fisicamente, a solidão. Embora na cela do lado, alguém, batendo com os dedos na parede, me dissesse, como se fosse a voz longínqua do meu povo:
- Coragem!
Eu estava, pela primeira vez, fisicamente só, dentro do meu sono povoado por esse grito que estalava por vezes as traves da minha cabeça (onde essa voz que mandava embora os fantasmas?).
E era terrível essa manhã sem manhã, essa realidade branca e gelada, toda feita de paredes, grades, perguntas, gritos. Mesmo que na cela do lado, alguém, batendo com os dedos na parede, me dissesse:
- Bom dia!
era terrível acordar nessa estreita paisagem com sete passos de comprimento por sete de largura, tão hostil, tão dolorosa como as regiões dos pesadelos. Porque acordar era ter a certeza de que a realidade não desmentiria o pesadelo.
Mesmo que os meus dedos batendo na parede transmitissem notícias dum homem que podia responder:
- Bom dia!
de cabeça erguida era terrível acordar no mês de Maio, com a certeza de que no dia 12 a minha mãe não entraria pelo meu quarto, deixando-me na fronte um beijo, e rosas vermelhas sobre os meus vinte e sete anos.
Talvez seja preciso renunciar à felicidade para conquistar a felicidade. Eu estava na cadeia em Maio de 1963. Tinha aprendido a solidão. Tinha aprendido que se pode gritar com todas as nossas forças quando se acorda a meio da noite com um grito na cabeça e um rato (talvez o medo?), roendo-nos o estômago, que ninguém, ninguém virá repor a paz dentro de nós. E, então, é a altura de saber se as traves mestras dum homem resistirão. Pois só a tua voz, amigo, responderá ao teu apelo torturado na noite. E, nessa hora (a mais solitária das horas), se conseguires cerrar os dentes, dar um murro na parede, acender um cigarro, se conseguires vencer esse encontro com a solidão no mais fundo de ti próprio, com que alegria, com que estranha alegria, na manhã seguinte, tu responderás:
- Bom dia!,
mesmo que seja terrível acordar no mês de Maio, nessa estreita paisagem, gelada e branca, com sete passos de comprimento por sete de largura.
É certo que se podem escolher outros caminhos. Mas poderia eu ter escolhido outro caminho? Acaso poderia dormir descansado, onde quer que estivesse, sabendo que algures, na noite, há homens que batem, há homens que gritam?
Os fantasmas tinham entrado no meu sono, invadiram a minha casa no cimo da ternura; os fantasmas eram donos do País. E se eles viessem de repente, a meio da noite, e eu chamasse:
- Mãe!
A voz (tão calma) de minha mãe já nada poderia contra eles. Era um trabalho para mim, uma tarefa para todos aqueles que não podem suportar a sujeição. Eu nunca pude suportar a sujeição. Acaso poderia ter escolhido outro caminho?
Por isso, em Maio de 1963, eu estava na cadeia, isto é, de certo modo, eu estava no meu posto.No dia 12 não acordei com o beijo de minha mãe.
Porém, nessa manhã (não posso dizer ao certo porque não tinha relógio, mas talvez – quem sabe? -, às dez e um quarto, que foi a hora em que eu nasci), o carcereiro abriu a porta e entregou-me, já aberta, uma carta de minha mãe. E ao desdobrar as folhas que vinham dentro do sobrescrito violado, a pétala vermelha, duma rosa vermelha, caiu, como uma lágrima de sangue, no chão da minha cela.

(in Praça da Canção)
Copyright © Manuel Alegre

terça-feira, 25 de abril de 2006



Eu vi Abril por fora e Abril por dentro
vi o Abril que foi e Abril de agora
eu vi Abril em festa e Abril lamento
Abril como quem ri como quem chora.

Eu vi chorar Abril e Abril partir
vi o Abril de sim e Abril de não
Abril que já não é Abril por vir
e como tudo o mais contradição.

Vi o Abril que ganha e Abril que perde
Abril que foi Abril e o que não foi
eu vi Abril de ser e de não ser.

Abril de Abril vestido (Abril tão verde)
Abril de Abril despido (Abril que dói)
Abril já feito. E ainda por fazer.

Manuel Alegre


Saudações de ABRIL !!!

Hoje e cumprindo um ritual de 20 anos, lá fui comprar os meus cravos vermelhos que partilho aqui convosco.

No dia em que o Presidente da República discursou na Assembleia sem cravo na lapela, que toda a direita ficou silenciosa na saudação aos militares de Abril presentes na assistência e em que só passados 22 anos se festeja de novo esta data em Marco de Canaveses, é necessário cultivar a memória desse Abril que pelos vistos não cabe na lapela de um presidente da Republica.


Sotix

sexta-feira, 21 de abril de 2006

Olá! Bons estados de alma primaveris para todos os que mergulham nas pacíficas águas deste lago.

Hoje, umas certas ninfas vieram confidenciar que o Sotix fazia anos. Que bom! O tempo traz experiência e mais aptidão para saboreá-la. A vida é feita destes marcos existenciais e, pensando nós ser o Sotix quem é, não os ultrapassa indiferentemente.

Continue a ser autêntico como o tem sido. Continue a privar com os amigos e oxalá seja muito muito, muito, muito, muito, muito...(sem redundâncias) <bold>FELIZ</bold>

PARABÉNS!

Os Transmontanos

quinta-feira, 20 de abril de 2006


Eu não sei se vocês já alguma vez viram, mas eu já vi. Uma cama numa esplanada de um café. Penso que para se arranjar ali um lugar talvez seja preciso passar lá a noite... digo eu..
BEM OBSERVADO!!!

Na quarta feira , 4 de Maio, 2006, 2 minutos e 3 segundos
depois da 1:00 AM da manhã, as horas e o dia serão assim:
01:02:03 04/05/06 Isto nunca mais vai acontecer na sua vida.

sábado, 15 de abril de 2006

em nome dos clientes.. obrigado pela informação

esta ementa não tem muito por onde escolher mas mesmo assim sempre são DOIS pratos..
boa páscoa..

domingo, 9 de abril de 2006


Bem pessoal
Olhem bem para a foto e depois tentem descobrir o nome dela
A minha ajuda é : o nome dela começa pela letra “ V “ e acaba com a letra “ A “
Se disse Valéria... errou...

sábado, 1 de abril de 2006


bem ... eu se poder escolher acho que vou comer uma "francesinha" até porque não gosto de "entremeio" e a outra coisa da ementa não sei bem o que é..

aceitam-se encomendas para todas as quantidades desejadas..

terça-feira, 7 de fevereiro de 2006

alguém sabe aonde é que ficam estas montanhas? bem aqui vai uma pequena ajuda...
não estão muito longe do lago.
o amigo do sotix

quinta-feira, 12 de janeiro de 2006

Há por aí alguém que me ajude a dizer aos candidatos mais à esquerda que, e por enquanto, esta campanha é só e apenas para a primeira volta.. a campanha da segunda volta ainda não começou.

 

O amigo do sotix

quarta-feira, 30 de novembro de 2005

Eu não sei se vocês viram a entrevista que a Judite de Sousa fez ontem à noite no canal 1 da RTP, ao candidato Manuel Alegre.

Eu vi, fiquei desiludido e passo a explicar porquê, é que a Judite em vez de fazer perguntas objectivas relacionadas com o cargo de Presidente da República, não, o que ela queria saber, o que ela perguntou, enfim o que ela queria ouvir, era o candidato Manuel Alegre fazer uma declaração de "guerra" ao outro candidato Mário Soares, isto mesmo depois de Manuel Alegre lhe ter dito que a eventual polémica entre os dois candidatos estava encerrada, que não valia a pena falar disso, e que ele estava ali para falar do futuro.

Aqui fica o meu "primeiro voto" de protesto e se não votar mais daqui até lá o meu próximo voto será no dia 22 de Janeiro.

O amigo do Sotix

sexta-feira, 18 de novembro de 2005

Camaradas, seguindo os conselhos do Sotix, fui aprender a nadar e por isso mesmo tenho andado ausente destas águas.
Agora que voltei, ainda sem saber nadar, queria dar os parabéns, ao Sotix pelo excelente trabalho, mesmo se para quem o conhece bem, como eu, nunca pode esperar outra coisa que não um trabalho de qualidade.
Agora mudando de assunto, gostava de poder abraçar fortemente a família do soldado português que pagou com a sua própria vida, um preço demasiado elevado, uma missão que os políticos do mundo inteiro podiam e deviam ter evitado.
Acho que vale a pena pensar nisto.

sexta-feira, 4 de novembro de 2005

"Aprende a nadar companheiro que a maré se vai levantar..." Caro Amigo do Sotix, não te preocupes por não saberes nadar, pois há sempre uma bóia amiga que espera por ti...E o importante é saber boiar...
Quanto ao facto de não seres profissional, bem, pelo menos vives da profissão...
Cá p'ra mim,a alusão irónica que se adivinha no teu post, visa um certo "aprendiz de feiticeiro" da nossa praça que não quer ser político profissional mas que do alto da sua "humildade" legendária
apenas ambiciona ser Presidente da República.
Mais um que já está a preparar o terreno para caso seja eleito, poder nomear a sua côrte de boys, pois não sendo ele político profissional, necessita de acessores que o sejam...
Mudando de assunto. Para quem leu o Anjos e demónios do
Dan Brown, pode consultando o site do CERN, verificar a desmistificação de algumas afimações que aí são feitas.
Se puderem visitar o local, saibam que vale a pena. Um destes dias estive lá e constatei que para além de ser enorme,(trabalham lá cerca de 6000 pessoas),é deveras impressionante!
Depois de ter passado algumas horas a conversar e a escutar com deleite um eminente cientista (físico experimental) português, ainda tive o previlégio de, numa das cantinas onde a conversa se desenrolava, e no espaço de cerca de meia hora, me cruzar com dois Prémio-Nobel !...
Quem visita o CERN, corre esse risco.

Sotix.

quinta-feira, 3 de novembro de 2005

Rapaziada, tenham calma e não agitem muito as águas porque o amigo do sotix não sabe nadar, e por isso não posso ir na onda.
Não quero ir ao fundo, desaparecer durante 10 anos e depois voltar e dizer: não sou profissional mas mesmo assim estou pronto para ser eu o homem do leme.

O amigo do sotix

domingo, 30 de outubro de 2005

Caro Sotix

Permita a este vocativo, pois é arriscamo-nos a ser imprudentes quando
familiarmente nos dirigimos a um desconhecido. Porém, deduzimo-lo na
sua intervenção, comunga dos horizontes límpidos e rasgados que
emolduram o ser e o estar de uns tais ditos Transmontanos. Não, caro
Sotix. Não o queremos ver preocupado com a interrogação de uma
assinatura plural, nem tão pouco pretendemos representar todos os
Transmontanos. Compreende que seria veleidade. Não se representa
afoitamente homens de um só ser e de um só parecer, como o Sotix sabe.

Mas já agora, não acha estranho que um Transmontano, como o afirmou,
se esconda num Sotix que também não abona nada no tal ser e parecer
inteiro.

Aludindo novamente ao L. Pacífico, meu caro sabemos perfeitamente o
que são lagos e para sua informação também os há em Trás-os-Montes,
mesmo sendo artificiais (o que só bem abonar a favor desta gente que
até a natureza consegue domar). O que nós pretendíamos saber era o
objectivo desta página porque ambientes “lacustres” lembram charcos e
águas inquinadas são incompatíveis com os assumidos “graníticos”.

Por acaso não seria interessante poder escrever, registar aqui, ideias
ou pareceres sobre as próximas eleições? Ou sobre outro tema qualquer?

Ficamos, “transmontanamente” aguardando ideias e mais uma vez
guardando a assinatura que pode ser plural ou singular, dependendo do
estado de espírito do leitor. Abraços graníticos.

Os Transmontanos

sexta-feira, 28 de outubro de 2005

A força telúrica das graníticas rochas é bem vinda a este lago de quietude e calmarias.

Porém quando interrogam : "Para onde ? Há rumo ? Há Norte ?" penso que se esqueceram de olhar para a parte lateral do vosso ecrã do computador e situar geograficamente este lago…

Qual rumo ? Qual Norte ? Então os amigos Transmontanos não sabem que um lago é o inverso de uma ilha,ou seja :Uma massa de água rodeada de terra por todos os lados ? Eu sei que em Trás os Montes não há lagos mas isso aprende-se na escola ou nos livros de Geografia. Portanto neste lago a navegaçáo lacustre é sempre feita "à vista". Até porque caso contrário a navegação marítima teria de ser comandada por verdadeiros marinheiros que é coisa que por aqui não abunda. (Mas contudo eles existem...)
Se procuram lagos com águas agitadas procurem...sei lá...na Escócia, que com a ajuda de produtos etílicos da região, consigam quiçá encontrar o monstro!...
Por cá , nestas latitudes, há mais calmaria.porém, nunca fiar muito na quietude das águas, pois na profundidade da calma aparente podem eclodir verdadeiros vulcões.

Já agora gostaria de saber o poquê do artigo anterior ser assinado no plural. Será que " os Transmontanos" são um comité? uma associação? um colectivo de cidadãos? ou representarão todos os Transmontanos? se assim for também me sinto representado, pois como dizia o grande Torga :"Onde estiver um transmontano está qualquer coisa de específico, de irredutível. E porquê? porque, mesmo transplantado, ele ressuma a seiva de onde brotou. Corre-lhe nas veias a força que recebeu dos penhascos, hemoglobina que nunca se descora."
Quanto ao amigo do Sotix, ou seja, meu amigo, em relação ao poeta a que fazias alusão no teu artigo, e do qual Os Transmontanos transcreveram um poema, um dia destes falaremos nele.
até lá, abraços lacustres.
Sotix

quinta-feira, 27 de outubro de 2005

As conversas são como as cerejas, umas ligam-se às outras. Isto vem a
propósito da urgência requerida pela frase citada na dissertação
anterior “Navegar é preciso”. Mas para onde? Há rumo? Há Norte?.
Navegar só pelo navegar pode levar a locais remotos, exóticos ou
“turbilhonar” no mesmo sítio.
E, neste impasse, parece que o tempo nos escorre das mãos.
Além do mais o título “Lago Pacífico”, vem conotar calmarias,
quietude…É ou quer-se um espaço/lago tão pachorrento?
Para tanta calma enviamos a força telúrica das graníticas.rochas.

Os Transmontanos

Caro amigo do Sottix

Como se esqueceu de dar o nome ao poeta, pergunto se será o autor deste
poema:
“…Talvez a própria vida seja isto
Passar montanha e mar sem se dar conta
De que o único sentido é procurar.
Como os índios do seu poema eu não desisto
Sou um português errante a caminhar
Em busca do país que não se encontra..”

Os Transmontanos